No cume do Brasil: ICMBio e parceiros realizam expedição técnica para aprimorar acesso ao Pico da Neblina (AM)

Foto: Reprodução/Internet

MEIO AMBIENTE

 

Trilha de acesso à montanha mais alta do país foi analisada por especialistas a fim de reunir propostas de melhorias na infraestrutura ao longo de todo o percurso. Profissionais Yanomami também serão beneficiados

o coração da Amazônia, onde a floresta encontra as nuvens, ergue-se o Yaripo — a Montanha dos Ventos, como os Yanomami chamam o Pico da Neblina, o ponto mais alto do Brasil. Entre paredões cobertos por floresta e neblina quase permanente, esse lugar é mais do que um marco geográfico: guarda significados espirituais, histórias ancestrais e um dos cenários naturais mais preservados do país. Sagrado para os povos indígenas e desafiador para montanhistas, foi nesse território de beleza e exigência física que servidores do Parque Nacional do Pico da Neblina (AM) realizaram uma expedição técnica para avaliar melhorias na trilha e nas estruturas de acesso à montanha.

A iniciativa foi conduzida por servidores do Parque Nacional, com o apoio da Frente de Proteção e da Força-Tarefa Yanomami, ambas vinculadas à Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), além do Instituto Socioambiental (ISA), com o objetivo de identificar melhorias na trilha e nas infraestruturas de acesso ao Yaripo.

A equipe que escalou os 2,9 mil metros de altitude da montanha mais alta do país foi composta por 11 napë (os brancos) e 22 Yanomami, divididos entre condutores, carregadores e cozinheiros, conforme é estruturado no Plano de Visitação Yaripo Ecoturismo Yanomami, elaborado com apoio do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) para ordenar a visitação à unidade de conservação federal.

Os não indígenas eram compostos por servidores do Instituto com especialidades em segurança de infraestrutura de trilhas, construção de acampamentos e avaliação de impacto ambiental. Dois experientes montanhistas brasileiros, Ronaldo Franzen “Nativo” e Tadeu de Oliveira, foram convidados para contribuir e, após a expedição, ministraram um curso de resgate em montanha aos Yanomami — a primeira iniciativa do tipo no Brasil.

Durante os 12 dias de jornada, entre 26 de janeiro e 6 de fevereiro, os participantes da expedição enfrentaram o desafio de atingir o cume da montanha, lidando com condições de calor, frio, chuva, lama, fome, sede, desgaste físico e mental. O trabalho, portanto, consistiu em fazer uma leitura técnica do percurso para que sejam propostas soluções que amenizem parte das dificuldades, com destaque para a infraestrutura dos acampamentos e para os pontos de maior risco de acidentes — concentrados sobretudo no trecho de ataque ao cume.

Em relação aos Yanomami, analisou-se como otimizar o trabalho de condução, especialmente quanto ao peso transportado nas costas por meio do tradicional jamanxim, avaliação que contou com a expertise dos parceiros do ISA.

“Desta expedição, reunimos o conhecimento necessário para promover melhorias ao Plano de Visitação ao Pico da Neblina, relativo à nossa gestão da unidade e à melhoria das condições de trabalho dos profissionais Yanomami. É naturalmente um avanço difícil, dadas as condições geográficas de isolamento da localidade, mas esta iniciativa é um primeiro passo para a busca de soluções”, destacou o chefe do parque, Cassiano Gatto.

Os Yanomami são um dos maiores povos indígenas em relativo isolamento da Amazônia e vivem em um território que engloba o Parque Nacional do Pico da Neblina (AM) - Foto: Leandro Eiró/ICMBio

Foto: Leandro Eiró/ICMBio

Os Yanomami são um dos maiores povos indígenas em relativo isolamento da Amazônia e vivem em um território que engloba o Parque Nacional do Pico da Neblina (AM)

A subida envolve aproximadamente seis a oito dias de trilha pela floresta até alcançar o cume - Foto: Leandro Eiró/ICMBio

Foto: Leandro Eiró/ICMBio

A subida envolve aproximadamente seis a oito dias de trilha pela floresta até alcançar o cume

Após a conclusão da expedição técnica, a equipe de especialistas definiu os seguintes encaminhamentos:

  • Propostas para o acampamento Base: elaboração de três alternativas de estrutura para o acampamento “Base”, localizado no sopé do Pico da Neblina, contemplando diferentes níveis de recursos e infraestrutura.
  • Melhorias no trecho final da trilha: está prevista, para agosto de 2026, a instalação de 50 degraus no segmento de ataque ao cume, bem como a reestruturação do sistema de apoio — incluindo cordas e correntes — com o objetivo de elevar os níveis de segurança durante a subida.
  • Mapeamento ambiental: realização de mapeamento prévio, por meio de drone, das cicatrizes do garimpo e de seus efeitos sobre a vegetação endêmica da Bacia do Gelo – o platô situado a cerca de 2.000 metros de altitude que abriga o acampamento Base.
  • Validação de protocolos operacionais: atualização e validação de procedimentos segundo o Plano de Visitação Yaripo, incluindo a pesagem e a distribuição de cargas entre os profissionais Yanomami, a organização da estrutura de coordenação geral, o acompanhamento dos visitantes ao longo da trilha e a realização de visitas técnicas dos responsáveis pelo projeto no ICMBio e no ISA.

31 de Março: a segunda maior montanha brasileira

Ao lado do Yaripo está o segundo pico mais alto do Brasil, o 31 de Março. A equipe técnica de montanhistas recomendou a exclusão da possibilidade de sua visitação turística, por motivos de falta de segurança e risco de degradação ambiental.

Trata-se de uma área em condições prístinas — ou seja, praticamente intocada, preservada em seu estado natural, com mínima interferência humana — e que deve ser reservada tanto por razões sagradas, na visão Yanomami, quanto por razões científicas, como seu potencial uso para o monitoramento de mudanças climáticas, por exemplo.

Fonte: CMBio

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